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Celebração da arte encurralada
Publicado no Valor Econômico de 31-08-2007, págs. 26 e 27 (Fim de Semana)   

Na Documenta 12, o melhor é a performance em torno da instalação “Chão da floresta”, de Trisha Brown, em que os dançarinos (ou “movedores”, como prefere a artista) executam a coreografia “Acumulação”. Dá o que pensar: quando na mais prestigiada exposição de artes visuais do mundo (que acontece a cada cinco anos em Kassel, na Alemanha), o melhor é uma dança dos anos 1970, então algo anda meio errado com as artes visuais.

Antigamente (isto é, durante o modernismo), as artes visuais, ao responderem à súbita perda da tarefa de retratar a realidade para a fotografia, pretenderam-se como algo assumidamente fútil. Sua função, se é que tal expressão se podia empregar, passou a ser a de poupar o expectador da dura realidade que o cercava. Escapismo e futilidade fizeram com que as artes visuais modernas elegessem por preocupação apenas elas mesmas. Os artistas tinham a presunção de seres especiais, capazes de alçarem asas do cotidiano estúpido, rude e sem graça para uma dimensão esteticamente gratificante, bem como de (generosamente) partilharem com seus expectadores esse trunfo. Fechadas em si, perderam-se nos mais diversos experimentalismos e exploraram conceitos pouco acessíveis aos não familiarizados com a trajetória modernista.

À exceção de alguns rompantes, como em La Guernica de Picasso, as artes visuais modernas queriam apenas o apartar-se da realidade (boba ou cruel) por meio de uma experiência esteticamente qualificada. Foram, em geral, confessadamente apolíticas enquanto durou a modernidade. A contemporaneidade pretende o oposto. Nas exposições contemporâneas de artes visuais, os expectadores não são momentaneamente protegidos da crueza do mundo. Ao contrário, são confrontados com ela de modo implacável. Nelas, não se oferece relaxamento, e sim mais estressamento; desprezam o escapismo e a futilidade.

Ao procurarem penetrar a realidade, as artes visuais contemporâneas querem fazer política. Isto é marcante na Documenta 12. Rara é a obra cujo sentido se exaure na experiência estética qualificada.

A contagiante Funk Staden, de Maurício Dias e Walter Riedweg proporciona aos expectadores uma idéia das festas funk dos morros cariocas. Nela, finalmente os habitantes da parte do planeta chamada Brasil conseguem comer o intrometido Hans Standen. O que poderia ser o marco da vitória final é, na verdade, a revelação de grande fragilidade. No passado, os índios recusaram-se a comer o alemão por tomá-lo por combatente fraco. Ao comê-lo hoje, os nativos ainda estariam incorporando fraqueza e não força. Claro, estão todos os expectadores na acolhedora segurança do Castelo Wilhelmshöhe, em que parte da exposição acontece. Deste modo, a bela vídeo-instalação de Dias & Riedweg permite-nos uma aproximação com a realidade das favelas do Rio sem o mínimo perigo de sermos vítimas de garrafadas, assalto ou bala perdida.

Nos jardins da praça central de Kassel, Sanja Ivekovic plantou mudas de papoula, para florescerem durante a Documenta 12. Faz parte da obra-de-arte a execução, duas vezes ao dia, de músicas revolucionárias cantadas por mulheres afegãs. O que tem uma coisa a ver com a outra? Só o catálogo explica: desde a queda do regime talibã tem prosperado o negócio de tráfico de ópio, cujo insumo se encontra na inocente papoula. Os ganhos desse incremento comercial, contudo, não estariam ficando nas mãos dos plantadores da flor.

E a girafa mal-empalhada? É a instalação de Peter Friedl. Cuida-se de Brownie, que morreu em razão dos combates entre israelenses e palestinos, em 2002, durante a segunda Intifada. Ela não foi atingida por nenhum projétil ou bomba. A coitadinha morreu ao bater com a cabeça numa barra de ferro, enquanto corria em pânico, desnorteada pelos barulhos dos bombardeios. A arte nos confronta com perdas inusitadas que a guerra ocasiona, muito além das que se tornam espetáculo nos jornais da TV.

Na mesma busca de explícita função política está o caminhão fantasma do espanhol Iñigo Manglano-Ovalle. Mais uma vez só o catálogo permite a compreensão do trabalho. Trata-se do caminhão em que Saddam Hussein estaria fabricando as armas de destruição em massa, alegadas no pretexto da invasão do Iraque pelos Estados Unidos. O artista o construiu tal como havia sido descrito no relatório apresentado pelo Secretário de Estado norte-americano Colin Powell às Nações Unidas, em 2003. Sabemos hoje que não existiam essas armas, muito menos o tal caminhão. Vê-lo com dificuldade na sala propositadamente escura do Hall da Documenta em que foi instalado (depois de ler o catálogo, claro) nos relembra a farsa esqualidamente montada para a tomada do petróleo iraquiano.

Outras obras da Documenta 12 poderiam ser apontadas como exemplares dessa caça à refuncionalização das artes visuais, dessa tentativa de se sepultar de vez a modernidade.
Estas bastam, contudo, para a contextualização do que convém discutir: o risco do ridículo. A política que os artistas pensam estar fazendo com essas iniciativas é risível, pueril, superficial, confusa. A se levar a sério, por exemplo, a instalação das papoulas, chega-se a que conclusão? Que não haveria mal no aumento do consumo de ópio, desde que o grosso dos lucros não ficasse com os traficantes, mas com quem planta o insumo da droga? O que se está questionando, afinal? Como a Friedrichsplatz ficou realmente linda, toda colorida com a florada, e as músicas das afegãs eram fortes, vibrantes, a obra é admirável, desfrutável, notável. Mas em nada útil para a discussão política de qualquer questão, que, a rigor, sequer se consegue identificar.

Que os artistas deixem aos jornalistas, aos professores e aos ativistas das ONGs a maçante tarefa de despertar nas consciências a atenção para os problemas sociais e econômicos. Quando se aventura por estas searas, o artista consegue, no máximo, algumas ligações ingênuas, que produz mais estranhamento que esclarecimento. E em geral, por não estar preparado para tratar com competência das complexas questões políticas, permanece na superficialidade de sutis intuições. Faz uma política poucamente política, que aborrece não somente os que buscam apenas experiências estéticas qualificadas, como também quem já está mais que consciente. Uma política que nada transforma, da qual apenas podem rir os políticos de verdade.

Não é à toa que a compreensão da obra depende tanto da leitura do Catálogo. Os recursos das artes visuais são limitados e, por mais esteticamente qualificado que seja seu aproveitamento, não se consegue, por meio deles, nem mesmo propor a questão; quanto mais discutir-lhes as nuanças, mapear os interesses em jogo, apontar caminhos, identificar as dificuldades para as soluções... Em suma, não se consegue fazer política de verdade somente com os suportes das artes visuais. Um roteiro explicativo será sempre indispensável à arte contemporânea.

O artista pode ter uma participação política; talvez, até deva. Mas isso não significa que a arte tenha que ser política. Os médicos sem fronteiras fazem política, mas seus atos clínicos continuam politicamente neutros. Nem tudo da herança modernista deve ser desprezada. O escapismo e a futilidade, longe de diminuírem as artes visuais, fazem-na viva.

Fábio Ulhoa Coelho é jurista e professor da PUC-SP