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Li o “Vivre plus lentment – un nouvel art de vie”, de Pascale d’Erm, com belíssimas fotografias de Elie Jorand (Editora Ulmer).

A história de como conheci este livro vale a pena ser contada. Começa quando, em julho passado, Mônica e eu estávamos em Orvieto, na Itália.

 

Passamos nossos últimos dias da viagem nesta incrível cidade murada da Umbria, situada a uns oitenta quilômetros de Roma. Eu já a conhecia de passagem, numa viagem anterior. Possui um Duomo lindíssimo, com uma inacreditável fachada com mosaicos coloridos e baixo-relevos belíssimos; no interior, afrescos memoráveis de Fra Angelico e Luca Signorelli. Também imperdível é a visita à cidade subterrânea.

Havia chamado nossa atenção, desde o início, que as lojas se fechavam na hora do almoço, lembrando a siesta, aquele antigo costume dos espanhóis, que nem na Espanha mais se encontra hoje em dia. Pois bem, o Vivre plus lentement nos informa que Orvieto é a capital das CittaSlow, uma rede de cidades em que o movimento da vida desacelerada é uma política pública.

Em nosso último dia, as malas já feitas e confiadas ao consierge do Palazzo Piccolomini, fomos almoçar num restaurante indicado no guia vermelho Michellin. Mas a edição que eu tinha era de 2007; chegando ao local (Piazza XXIX Marzo 8-A), deparamo-nos com outro restaurante lá instalado. O nome: “Osteria del Saltapicchio”. O ambiente mais que acolhedor, circundado por estantes repletas de livros, recomendou ficarmos e experimentarmos.

Enquanto esperávamos o pedido, Mônica demorou-se nos títulos que as lombadas dos livros próximos à nossa mesa revelavam; deteve-se exatamente no Vivre plus lentement. Uma feliz coincidência – o “Saltapicchio” é mostrado, no livro, como exemplo de restaurante adepto do movimento Slow food, criado por Carlo Petrini. A chef Valentina, que havia nos atendido há pouco, aparecia em fotografias escolhendo os produtos no mercado da cidade e até mesmo diretamente em hortas de produtores orgânicos locais.

Claro que conversamos a respeito do livro com Valentina, uma moça muito simpática e inteligente. Surpreendeu-a sermos brasileiros (ela nos tomara por espanhóis). Anotei os dados do livro e, uma vez de volta ao Brasil, encomendei-o via internet.

O movimento de desaceleração da vida não propõe nenhum tipo de isolamento idílico no campo ou em pequenas cidades. Ao contrário, são os moradores das grandes e aceleradas metrópoles o destinatário de suas mensagens. Na adoção de novos hábitos de trabalho, convivência familiar, transporte, alimentação e até mesmo de prática de esportes radicais concentram-se os postulados do movimento.

Vivre plus lentement traz uma abordagem realista da questão. Não nega, por exemplo, que desacelerar no trabalho implica, quase sempre, redução de ganhos. Procura chamar a atenção para a importância de cada um repensar suas prioridades. Num mundo cercado de máquinas destinadas a otimizarem o tempo (automóvel, e-mail, celular, etc), temos, cada vez, menos tempo. Desacelerar pode ser a chave para desarticular este paradoxo.