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Assisti ao Três solos e um dueto, com Mikhail Baryshnikov e Ana Laguna.

Ele está sexagenário; ela, cinquentenária. No espetáculo, nos quatro números, recorre o tema “amadurecimento”, eufemismo para o tempo das limitações crescentes.

Não há altos e baixos na apresentação; só altos, a noite toda – talvez esta seja, junto com os movimentos mais lentos e significativos, característico do amadurecer no palco de dança.

Ele faz o primeiro solo (Valse-fantasie, coreografia de Alexei Ratmansky), que conta a história de uma decepção amorosa. Quando termina, desmorona o teatro em aplausos. Aplaudimos, na verdade, não o que acabamos de ver, mas tudo de Baryshnikov que vimos desde sempre. Ele agradece feliz, radiante.

Ela faz o segundo solo (Solo for two, de Mats Ek, marido de Ana). A jovialidade incontida debate‑se para extrapolar o corpo que não é mais jovem; expressa-se, sim, mais por contenção e descontentamento, que por realização e plenitude. Aplausos renovam-se intensos.

Ele volta para o terceiro solo (Years late, de Benjamin Millepied), em que o tema recorrente nada tem de abstrato – Barishnikov dança com ele mesmo, isto é, com uma sua projeção no filme que passa na imensa tela ao fundo do palco. Interagem o bailarino real no tablado e a própria imagem na tela. Há como que uma competição e o ser virtual perde. Repentinamente, o filme não é mais do dançarino de hoje, mas de quando tinha 17 anos. E o solo tem três Barishnikovs agora: no palco, ele; na tela, o menino do filme e também a sombra do bailarino real. Este titubeia, ensaia, resiste, sucumbe; limita-se, enfim, a admirar o virtuosismo juvenil. Enquanto se afasta o ser real, lentamente, da tela e se aproxima do holofote, cresce a sombra ao lado do menino que se exibe, em incontáveis piruetas. A sombra agora é a de um gigante e faz parecer tolo o prodigioso menino. Aos aplausos frenéticos, respondeu com novo sorriso. Estava feliz, ainda.

No dueto (Place, também de Mats Ek), ele e ela transbordam em vitalidade, seus corpos movendo narrativas de encontros e desencontros. Correm ao redor de uma mesa abraçados, sorridentes, sedutores, audazes. Por pouco tempo. O amadurecimento reintroduz-se com toda a crueldade. A personagem de Barishnikov envelhece e sofre, a de Ana parece enlouquecer.

Os aplausos finais são, claro, os mais vibrantes. Eternizam-se. Ela sorri, grata e bem, mas ele, não. Está triste, vê-se em sua alma.

Numa entrevista, Barishnikov disse que esta é, provavelmente, sua última turnê pela América do Sul. Tomara que não. Mas, se sim, foi sem dúvida um privilégio ter tido a oportunidade de estar lá.