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Li concomitantemente Não há silêncio que não termine, de Ingrid Betancourt, e Confissões, de Santo Agostinho.

Comecei pelo relato de Betancourt, seus sete anos de cativeiro na selva, refém das FARCs. Narrativa de sofrimento intenso, li-a com vagar, entremeando pausas nas quais a mente, fatigada de tantos horrores, buscava alívio em texto menos doído.

São duas histórias de libertação.               

No caso de Betancourt, a libertação não é apenas o resgate das mãos da FARCs, em operação militar de extremo risco, mas inteligente, audaciosa e de pleno sucesso. Sabemos do final feliz, mas o texto, bem estruturado sob o ponto de vista dramático, nos faz temer por ele.

Betancourt não foi propriamente capturada; embrenhou-se com excesso de confiança num território dominado pela guerrilha, em plena candidatura presidencial. Uma imensa porção do território colombiano havia sido imprudentemente desmilitarizada pelo governo Pastrana, atendendo uma das condições das FARCs para sentar à mesa de negociação. Fracassadas estas, o governo anunciou ter procedido à imediata retomada do território, o que, claro, não era inteira verdade.

Betancourt diz ter se arriscado num gesto de apoio à remilitarização, mas não me convence de que seu objetivo não seria, na verdade, desmoralizar esta operação, colhendo in loco provas de que as FARCs ainda dominavam a zona. Pensava estar, de algum modo, protegida por sua posição política, de oposição ao governo Pastrana. Excesso de onipotência e ingenuidade.

A história da amarga experiência do demorado cativeiro é a da libertação de Betancourt de alguma onipotência e de muita ingenuidade, não apenas de seu hediondo cárcere.

Já Santo Agostinho, um dos fundadores da cristandade, um dos 33 Doutores da Igreja Católica, é um arguto pensador, que lançou as bases para a distinção entre matéria de fé e ciência. Em Confissões, dirigindo-se a Deus, a pretexto de confessar os pecados, sobrepõe autobiografia e estimulantes reflexões filosóficas. Obra escrita no século V, enfrenta questões como atributos da memória, eternidade, materialidade do mal, conhecimento de Deus.

Naquele tempo, acreditava-se que apenas os pecados cometidos após o batismo condenavam ao inferno. Antes dele, a pessoa não podia ser responsabilizada por seus atos. Muitos, então, adiavam o batismo o quanto podiam, para aceitarem-no somente na velhice, ou mesmo pouco antes de vislumbrarem a proximidade da morte.

O próprio Agostinho sugere ter adotado, durante algum tempo, esta estratégia, a que se refere pelo saboroso Dai-me a castidade, Senhor, mas não agora. Como muitas vezes acontece, inteligência e fino humor caminham juntos.

Curioso que o relato autobiográfico não ultrapassa a morte da mãe, a também santificada Mônica, poucos anos após a Revelação com que Agostinho se converteu ao cristianismo. Ao negar-nos notícias de sua vida a partir de então, o Bispo de Hipona impede-nos concluir se não teria também pecado depois de batizado.

Mesmo assim, é também a história de uma libertação: de um homem atormentado consigo mesmo e temendo por sua alma, que encontra a paz na fé.

A cada fuga intentada, e frustrada, Betancourt sofria punições mais severas de seus algozes. Na última, foi condenada ao silêncio: estava proibida de falar com os outros reféns. Santo Agostinho, num típico debate de seu tempo, argumenta que Deus, por ser perfeitamente bom e criador de todas as coisas, não criou o mal. Na verdade, o que chamamos de mal não é nada, não existe como um ser, algo criado – é apenas a ausência do bem. Exemplifica com o silêncio, que igualmente não existiria, sendo mera ausência de som. Betancourt, soterrada na pena do silêncio, não concordaria facilmente.