Quando visitei a Bienal de Veneza (54ª. Exposição Internacional de Arte), ouvi mais risos que a dose habitual em exposições de arte. E eram risos soltos, abertos, de quem estava realmente se divertindo; nada dos sarcásticos, costumeiramente ouvidos nestes ambientes, como enigmáticas e desalentadas críticas pairando no ar.
Algumas obras são como cartoons. Não dá, por exemplo, para segurar o riso diante de Turisti, recriado por Maurizio Cattelan para a exposição. Está no frontispício do Pavilhão Principal e em vários espaços no interior do edifício. Traz para dentro do ambiente erudito da mostra, de modo lúdico, elemento de presença incômoda na paisagem veneziana. Também se ri do Venn Diagrams, de Amalia Pica. Só pode ser piada a ditadura argentina, em sua obsessão para evitar reuniões de pessoas, ter proibido, nas aulas de matemática, o ensino do diagrama de Venn. Uma piada de nerd, reconheço, mas, ainda assim, bem divertida. Risível, igualmente, é o atônito pinguim diante do anúncio em neon, convocando homens para um trabalho arriscado e mal remunerado, que o chileno Fernando Prats instalou na Ilha do Elefante, na Antártica, e trouxe a nós no filme Gran Sur.
Até mesmo aquela rabugenta arte de ingrediente político (uma presença inevitável) pareceu menos aborrecida desta vez. Há, entre elas, tolices como Angel Soldier n. 2, do coreano Lee Yongbaek, uma colorida miscelânea de flores e armas; ou como a insossa intervenção feita por Diohandi no Pavilhão grego, tratando da crise atual na economia européia. Mas o visitante, nesta Bienal, não é soterrado por uma avalanche de palpites políticos pueris, desprovidos de qualquer proposta estética qualificada.
Entre as obras de apelo político, sobressai a de Sigalit Landau, ocupando o Pavilhão israelense. Chama-se One Man’s Floor is another Man’s Feeling e discute a disputa territorial entre judeus e palestinos de modo tão criativo quanto percuciente. Os vídeos dos homens demarcando espaços na areia com facas e da menina amarrando cordões de sapatos mostram a intersecção entre arte e política. São mostras, também, dos limites desta intersecção. Interessante é, por outro lado, a homenagem a Ahmed Basiouny, artista egípcio morto baleado numa das manifestações da Praça Tahrir que derrubaram, no início do ano, o ditador Mubarak.
Ponto alto da exposição está no Pavilhão húngaro, na instalação Crash – passive interview, de Hajnal Németh. Define-se como ópera experimental. A base são doze histórias, construídas a partir de entrevistas com os sobreviventes de acidentes automobilísticos. A maneira pela qual as histórias são contadas, sempre por uma dupla de cantores líricos, é simplesmente extraordinária. Um deles pergunta, e o outro, responde. Por este expediente, conhecemos os fatos que cercaram o acidente, e ficamos sabendo dos sentimentos e ideias de quem vivenciou o crash. A passividade da entrevista deve-se à estrutura das perguntas, formuladas de modo a comportarem como resposta apenas “sim” ou “não”. A obra mostra, no final, inúmeras maneiras de se dizer “sim”, e outras tantas de se dizer “não”. Hajnal não recomenda nenhum roteiro pré-estabelecido para a visita; eu sugiro entrar pela direita do Pavilhão. Em Passive Interview, apesar do trágico em foco, há humor, e dos mais refinados.
Imperdível é a instalação The Clock, de Christian Marclay. Na verdade, em Veneza não se consegue ver toda a obra, porque ela dura 24 horas; e o Arsenale fica aberto somente das 10hs00 às 18hs00. Paradoxalmente, desfruta-se dela por completo em bem menos tempo. Acomode-se num dos confortáveis sofás brancos e veja o filme por uns cinco minutos antes de consultar seu relógio: acontecem muitas coisas ao mesmo tempo, no mundo todo. Inteligentemente divertido.
Claro, nem tudo de bom na exposição é humorístico ou presta-se ao riso. As belas esculturas no The Sleeping City, de Dominik Lang, a fotografia poética de Jean-Luc Mylayne, a exuberante história da rã no poço de Tabaimo, e as pinturas (sim, há pinturas em Veneza!) de Andreas Eriksson são obras de arte que se contentam em simplesmente encantar, deleitar.
No Pavilhão da França, Christian Boltanski apresenta obra que foge, mas não foge inteiramente, de sua temática predominante: a morte. Em Chance, dois grandes contadores estimam o número de nascimentos e falecimentos no mundo, aquele evidentemente suplantando este. Somos convidados a passear pelas entranhas de uma engenhoca barulhenta e nervosa, fábrica de novos seres humanos. A instalação foi criada especificamente para exposição naquele local. No mesmo Pavilhão, outra obra do artista integra-se com perfeição ao contexto. Falo de Being Anew, produzida por Boltanski em 2005, em que novas e diferentes pessoas surgem de recortes de outras.
O diálogo entre duas obras do mesmo artista, uma delas feita especificamente para o espaço de uma representação nacional, inspirou também a participação brasileira na Bienal. Puseram, na primeira sala do nosso bem localizado Pavilhão, uma retrospectiva do trabalho de Artur Barrio (denominada Records), e franquearam a segunda sala ao artista, para a criação de nova instalação. Está certo, a pressa do artista não é a dos outros, como ele faz questão de ressaltar; mas o resultado final, unindo o transposto para o local e o nele gerado, acaba fazendo menos sentido que a conjugação empreendida na representação francesa. O contexto, de algum modo, perde-se no percurso.
Entre as novidades curatoriais desta edição, estão os Para-Padiglione. Quatro artistas, de diferentes nacionalidades, perfis e idades, foram convidados a criarem obras que pudessem servir para exibir trabalhos alheios. Se os pavilhões, a marca indelével da exposição veneziana, inevitavelmente segregam a produção artística segundo o discutível critério nacional, e o tema da exposição (IllumiNAZIONI) propõe a discussão sobre a comunidade artística supranacional, nada poderia ser mais apropriado e instigante que “edifícios artísticos” erigidos para abrigar arte. Dos quatro pára-pavilhões, dois se pautam em ingredientes autobiográficos, e o de melhores resultados, para mim, é o Antechamber da polonesa Monika Sosnowska, no Pavilhão principal. Outro tento da curadoria foi exibir três Tintoretos, em especial seu Santa Ceia.
A Europa passa por momentos difíceis. As incertezas da crise econômica contaminam visivelmente o ânimo de todos. Mas, o bom humor estar mais presente que o pessimismo na Bienal de Veneza indica que, talvez, a arte tenha recuperado algo de sua função escapista. A maioria dos interessados na produção contemporânea talvez desgoste, mas eu acho isto bom, muito bom.


